Um filme de pelúcia, por essência, é fofo e faz barulho quando você o aperta. Onde vivem os monstros é assim, e tem um acompanhamento musical – também chamam isso de trilha sonora – ainda pior, ou seja, mais fofo e mais barulhento. Nunca reclamei de trilha. Agradeço a Karen O. por esta oportunidade.
E os monstros – pensava eu depois da metade do filme-, estavam tão agradáveis, tão amigáveis – eram os monstros que salvariam tudo – então por que a tragédia? É, eles são trágicos e cheios de mimimi, essa é a tragédia. Pena, porque eles sabem como se divertir – e como nos divertir.

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10. Os meninos da rua Paulo – Ferenc Molnár


O livro mais famoso de Ferenc Molnár é uma novela com crianças, para crianças. Tá, é um livro para meninos. Mas como todo lançamento de um filme da Xuxa; é uma história para os meninos de todas as idades também. Diz a contra-capa – sem sotaque- que no Brasil foi adotado – juro que eles usam essa palavra – por várias escolas. E saber que várias crianças brasileiras conheceram esses meninos de Budapeste me deixa mais confiante de que meia dúzia deles tenha se interessado por terrenos baldios, honra e briga; palavras que, infelizmente, causam ataque de epilepsia em muitos, hoje em dia.

09. Notas do Subterrâneo – Dostoievski


Li uns três livros sobre fazer amizade – e não ser sucedido – ano passado. Este é o melhor deles. Notas do subterrâneo – ou notas do subsolo – é dividido em duas partes. Eu não estava entendendo como este livro – que conheci muito tarde, talvez – era tido como um clássico de Dostoievski até chegar a essa segunda parte, quando, por intervenção divina – ou os dedos do autor mesmo – o personagem começa a ter uma cara, um nome e, graças, uma história.

08. O Longo Adeus – Raymond Chandler


A impressão que dá depois de ler O Longo Adeus, é a de ter visto um filme longo, e muito bom, de trama complicada. Todos já disseram isso de algum livro que leu, mas não, não, este é mais. Posso descrever cenas inteiras, detalhar o automóvel que foi usado na fuga, o gosto do café que o Marlowe costumava preparar, descrever os sons de dentro do bar Victor’s, o cheiro de Lennox quando estava bêbado, etc. É um clássico de cinema americano dos anos 50, mas é livro.

07. Sobre Herois e Tumbas – Ernesto Sábato


Sou da opinião – desde agora – de que é impossível escrever um livro bom de 600 páginas sobre o amor de um adolescente- e que não sabe chegar em meninas. Sobre Heróis e Tumbas não me provou o contrário – e, acredito, ninguém o fará; mas usa isso para contar quatro ou vinte outras coisas que, aparentemente, não fazem sentido entre si. O melhor momento que tive no ano lendo uma ficção foi – com alguma dúvida – dentro deste livro e, só por este momento, por aquelas páginas, ele vale mais do que uma estante inteira dentro de uma livraria comum.

06. As Brasas – Sándor Márai


Uma conversa entre dois amigos que não se vêem há dezenas de anos. Tem uma mulher no meio disso. Mas mais do que um triângulo amoroso – é assim que eles chamam, não?-  é a amizade entre esses dois homens que conta – e isso eles chamam de quê?

05. As Viagens de Gulliver – Swift


Na falta de bonecos e um quintal grande para brincar, escreve-se (por que não?) As Viagens de Gulliver. Uma das imagens mais marcantes da literatura mundial está aqui: Gulliver amarrado por homens minúsculos num país desconhecido – quem não conhece essa imagem não vive neste mundo. Mas não é este o país mais interessante de sua viagem – Gulliver viaja por muitos outros e faz, inclusive, uma passadinha rápida pelo Japão.

04. Zazie no Metrô – Raymond Queneau


Zazie é uma menina desbocada do interior da França que tem, como maior sonho, conhecer o metrô de Paris. A história não é nada mais do que isso – e nem venham dizer que é. São as conversas que ela tem com o seu tio (um hormossexual?) e os amigos que eles vão encontrando no caminho que o torna tão divertido. É natural que você ria sozinho – algumas vezes alto- enquanto o lê, e não importa se você está em casa, dentro de um ônibus lotado, ou esperando pelo atendimento do urologista de um hospital público.

03. O Conde de Abranhos – Eça de Queiroz


Alguém precisa me apresentar um autor de língua portuguesa que escreva melhor do que Eça de Queiroz. Mesmo um livro pequeno como este, numa prateleira de livros escritos em português de uma biblioteca qualquer, exerce uma forte influência sobre todos os outros – e por influência eu estou me referindo a um certo desprezo. Como na prateleira do lado – a dos livros argentinos – onde Borges faz o mesmo, chutando.

02. Pnin – Vladimir Nabokov


Vou lhe dizer o que se ganha com uma pessoa arrogante; um autor como Nabokov. Enquanto no meu país as pessoas são muito doces e usam nomes de árvores para falar de A de amor, B de baixinho, C de coração, Nabokov tinha asco por Dostoievski, mas escrevia a sua altura. “Há homens que são vogais abertas e outros que são consoantes mudas. Pnin pertencia a essa última variedade”. A citação é só pra dizer que eu falei alguma coisa do livro.

01. Vile Bodies/Um Punhado de Pó – Evelyn Waugh


Um título estava seguido do outro na lista dos melhores que li no ano passado, mas como parece regra isso de não colocar dois autores coladinhos – e eu, bobo, acreditando nela – tive que dividir o espaço entre os dois Waugh. Vile Bodies me trouxe mais momentos sublimes – juventude retardada nos anos vinte é sublime – mas Um Punhado de Pó é mais regular, ou seja, muito bom sempre. Preciso falar alguma coisa sobre o humor de Waugh, mas que seja original; enquanto isso me prepare um café.

Inclui-se aí os filmes vistos no cinema em 2009, mas que podem ter sido feitos até dois anos antes. É com alguma dor no coração – e uma pontada na virilha – que filmes como: A Troca (Clint Eastwood); Independência (Raya Martin);  Avatar (James Cameron); O Fantástico Senhor Raposo (Wes Anderson); Shirin (Abbas Kiarostami); Merde (Leos Carax) tenham de ficar para fora, no frio.

20. A Bela Junie – Christophe Honoré


Mas garotos complexados são melhores dançando e com gosto de limão.

19. Inimigos Públicos –  Michael Mann


Os vilões têm um canto garantido dentro do peito.

18. Mother – Joon-ho Bong


A vontade de querer agradar o tempo todo.

17. Abraços Partidos – Pedro Almodóvar


Senta que eu vou lhe contar uma história.

16. Ricky – François Ozon


Drama social sem pé no chão.

15. Entre os Muros da Escola – Laurent Cantet


Eles não são personagens, são seus colegas de sala-de-aula.

14. Morrer como um Homem – João Pedro Rodrigues


Na salada você acrescenta perucas, penas coloridas e muito glitter.

Mas não vai pensar que o resultado disso é só alegria.

13. A Família Wolberg – Axelle Ropert


Melhor não contar na mesa aquilo que não quero ouvir. E não fale de boca cheia.

12. Desejo e Perigo –  Ang Lee


Quem mete medo, mete bem.

11. Nanayo – Naomi Kawase

Je ne sais pas japonês

10. Polícia, Adjetivo – Corneliu Porumboiu


No princípio era o adjetivo; coxo, incompleto.

09. Seguindo em Frente –  Hirokazu Kore-Eda


As Batchans são ácidas.

08. Singularidades de uma Rapariga Loura –  Manoel de Oliveira


Adaptação de um conto em forma de longa curto, mais curto que o título; e divertido como ele.

07. Gran Torino –  Clint Eastwood


A xenofobia pode ser tratada com os seus vizinhos.

06. Ervas Daninhas – Alain Resnais


Brinquedo colorido.

05. 35 doses de rum – Claire Denis
É na 35ª dose que se começa a ficar sóbrio.

04. Vincere – Marco Bellocchio


A história de uma mulher pode ser contada com muita virilidade, também.

03. Amantes – James Gray


O que não mata enfraquece o coração.

02. Bastardos Inglórios – Quentin Tarantino


A película é altamente inflamável.

01. A Religiosa Portuguesa – Eugene Green


Suba esta ladeira e se encontre lá em cima.

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