Alguma coisa ruim – e muito mal-cheirosa – está acontecendo no mundo. O trânsito não anda há pelo menos oito horas. Todos estão indo para o mesmo lugar, ao mesmo tempo; e uma manifestação de pessoas que se chicoteiam, vestida para trabalhar, atravessa as ruas. Já percebeu que os homens se vestem para ir ao trabalho como se estivessem indo ao próprio funeral? O homem morto usa a mesma roupa de um advogado, ou um empresário, ou um banqueiro; ou vai ver estamos todos mortos mesmo e vestidos como no dia em que nos enterraram. Exageraram no pó-de-arroz, no entanto. A maquiagem nos deixa com cara de zumbis. A impressão que temos quando pegamos um trem, por exemplo, é essa; são todos mortos-vivos – e, às vezes, esses mortos-vivos até falam com a gente, pedem uma informação, uma moeda, qualquer trocado serve. Quando eu era pequeno, achava que o som do metrô em alta velocidade era canto gregoriano de monges. Cada ponto de iluminação do túnel, algo divino. O metrô era divino, e também muito estranho. Mas o mundo é muito estranho, e não tem nada de estranho nisso.

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